A mente vazia dos burros de carga

Vamos falar de escravidão...
A experiência de intercâmbio, me trouxe a oportunidade de me sentir um pouco escrava. Meus dias consistiam de trabalho. Me lembro muito bem que quando decidi participar do programa e fui informada das horas e do tipo de trabalho ao qual precisaria me submeter, achei interessante. Pensei comigo mesma que seria uma boa oportunidade para descansar a minha cabeça. Eu ficaria o dia inteiro realizando um trabalho braçal e não precisaria pensar muito. Quem estuda e trabalha sabe como a cabeça de uma pessoa pode ficar incrivelmente estressada quando dela é exigido um ritmo quase incessante de raciocínio e produção intelectual. Ficar sentada numa cadeira nunca foi o que eu mais gostei de fazer. Por isso os primeiros dias foram interessantes... trabalhava das 8 h da manhã até as 16 h da tarde, algumas vezes até as 17 h. Cansava meu corpo, falava besteira o dia inteiro, não pensava em nada, chegava em casa e dormia. Por algum tempo, essa rotina até que foi legal pra mim... Três semanas depois do início do primeiro emprego, surgiu a oportunidade de conseguir um segundo... A proposta era trabalhar no mercado, realizando as atividades que já descrevi no texto anterior. Os problemas na casa já tinham começado (brigas, bebedeiras, roubos, muita gritaria...) transformando meu “doce lar” num lugar já não tão pacífico e tranquilo, o que me levou a pensar que seria bom ficar o máximo possível fora de casa, trabalhando... A questão financeira também foi um dos grandes motivos que me levaramprocurar o segundo emprego. A proposta do meu intercâmbio era trabalhar quatro meses e no quinto mês, aproveitar para fazer turismo pelo país. Eu tinha medo de passar necessidades, ou me meter em apuros nesse quinto mês em que não estaria trabalhando, e pensei que precisava guardar o máximo de dinheiro possível, para estar “segura” caso alguma emergência acontecesse. Por todos esses motivos, aceitei o segundo emprego. Agora, quando a maratona de limpeza no hotel terminava, quando para minhas colegas era hora de ir pra casa descansar, meu dia estava apenas na metade. Passei a trabalhar no mercado das 17 h, até as 22, 23 h da noite. No começo, eram apenas três dias por semana, durante 3 horas. Eu pensei comigo mesma que 15 horas a mais por semana não me prejudicariam muito, e a “graninha” que eu iria ganhar seria útil, cobriria no mínimo os gastos com comida e transporte que eu estava tendo. Mas como o chefe se agradou do meu trabalho, os dias passaram de 3 para 4, e desses para cinco, e um mês depois que eu tinha iniciado lá, ele chegou para mim e disse que eu poderia trabalhar o quanto quisesse. “Você é muito esforçada e sei que precisa de dinheiro, por isso, você pode trabalhar quantos dias por semana quiser, e quantas horas conseguir”. A tentação foi muito grande. Seria melhor que ele tivesse dito: “você só pode trabalhar 5 dias, durante 3 horas” como era a proposta inicial. Mas a liberdade sempre trás a tona aquilo que você realmente é. Como uma legítima gringa, eu me descobri uma pessoa ganaciosa e insegura. Queria fazer o máximo de dinheiro possivel, mas não apenas para acumular, mas por medo de como seria aquele último mês em que eu estaria impossibilitada de trabalhar. Colocar minha segurança no dinheiro e não em Deus, me levou a trabalhar 7 dias por semana. Como a remuneração no mercado era mais alta do que no Resort, eu optava sempre por sair mais cedo do outro trabalho e ir correndo para o mercado, trabalhar o maior numero de horas possível. No úlimo mês, extamente março deste ano, eu trabalhei trinta dias seguidos, sem folga, numa média de 13 a 15 horas por dia. Eu poderia falar aqui da minha ganância, da falta de confiança e de como fui estúpida, mas na verdade eu quero descrever a sensação física que experimentei. Levantar de manhã, sabendo que passaria o dia inteiro em pé, carregando sacolas de toalhas, lençois, baldes com produtos de limpeza, ou agachada, limpando o vaso, a banheira e o chão que outras pessoas sujaram, e que em seguida passaria a noite carregando caixas e sacos pesando mais da metade do seu próprio corpo, era completamente deprimente. Aos poucos o “não pensar em nada” transformou-se em uma profunda inércia mental. A Inércia aos poucos tranformou-se em um monte de pensamentos medíocres. Onde antes haviam pensamentos de compaixão e ajuda em relação as pessoas, onde havia vontade de encontrar oportunidades para compartilhar o amor de Deus, onde havia reflexões sobre o sentido da vida e preocupações em relação às próprias atitudes... começaram a surgir pensamentos primarios... “o que vou comer agora? Quando vou poder sentar? Como alguém pode berrar tanto e ser tão burro (isso em relação à minha chefe)? Quanto dinheiro estou fazendo nessa hora... (cheguei ao cúmulo de calcular quantos dólares fazia por minuto)? Porque as pessoas escolhem tanto as frutas? Que raiva dessas crianças estúpidas que derrubam uvas no chão...!” E o principal, o pensamento que dominava minha mente e que quase passou a ser meu maior desejo...” QUANTAS HORAS FALTAM PRA EU PODER DORMIR?” Tá e daí? Bom, e daí que eu aprendi que preciso parar de julgar a ignorância alheia das pessoas que só trabalham e nunca param para pensar em coisas importantes como a situação política mundial, como o seu voto pode influenciar o destino da nação, que se ninguém jogasse lixo nas ruas ela seriam limpas, que se reciclássemos o que desperdiçamos o meio hambiente seria preservado... bla bla bla...
Escrito por Carol pierosan às 22h08
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Uma pessoa que só trabalha, que só cansa o corpo, fica entediada, fica indiferente... eu estava pouco me lixando nos últimos dias... e é incrível, eu mesmo me admirava do tão pouco que eu me lixava MESMO... O que é mais triste é que esse estado de “burro-de-carga” não é escolhido voluntariamente por todos (como aconteceu comigo), mas muitas pessoas relamente precisam trabalhar com as mãos, direto, para sobreviver... pense nos chineses que chegam em alguns casos a morar nas fábricas para não perder o tempo que seria gasto para ir e vir e já trabalham desde que acordam até a hora de ir dormir... pense no que aconteceu no Brasil, no que os negros suportaram a quinhentos anos atrás... e pense, que patéticamente ainda existe escravidão hoje, não mundo afora, mas no Brasil mesmo... pense nos cortadores de cana que trabalham o dia inteiro fazendo a mesma coisa, o mesmo movimento corporal, cortando, cortando, cortando....pense nos mexicanos que arriscam a vida tentando entrar nos EUA para serem escravos lá, trabalhando para ganhar metade do que um americano ganharia... O Paulo (www.desabafos.blogspot.net) costuma falar muito de revolução social... que se as pessoas se unissem elas poderiam mudar as coisas – as condições de trabalho, a remuneração, o governo etc – eu ele e a Cassi conversávamos a respeito disso no fim-de-semana passado. Ficamos imaginando como seria se todos os chineses parassem de trabalhar por um dia. (Não sei se você sabe, mas muitos trabalham o mês inteiro para ganhar 30, 40 dólares no fim do mês... você consegue imaginar isso? Isso é o mínimo que você faz em um dia de trabalho nos EUA). Chegamos à triste conclusão que isso é praticamente impossivel. As pessoas não têm coragem, as pessoas não se unem e elas principalmente não pensam. Qual daqueles trabalhadores vai gastar 20 minutos do seu dia para pensar em se arriscar para melhorar a situação da massa trabalhadora do seu país, se nesses vinte minutos em que não está trabalhando ele está perdendo dinheiro e correndo o risco de perder o emprego? Tá, não faz sentido...! Não, realmente não faz sentido, mas eu sou testemunha do que é sentir-se assim... do que é não se importar, não estar nem ai pro errado e só pensar em chegar em casa e comer qualquer porcaria... dormir. Por isso nós... burquesinhos de plantão, precisamos começar a pensar pra que afinal nos foi dado o privilégio de estudar de manhã e ir pra casa assistir Malhação de tarde. Ou então os que trabalham... por que é que a você foi dada a oportunidade de estudar e conseguir um emprego que estimule teu cérebro? Você que tem tempo de pensar, você que sabe como falar, você que tem acesso e respeito diante dos teus superiores... o que você faz pelos mais simples? Pelos trabalhadores, pelos “burros-de-carga”? Eu me canso as vezes observando os pensadores viajarem sobre questões filosóficas, e discutindo sempre nas mesmas rodinhas intelectuais... acho que talvez precisássemos ser mais ativos.... mais realistas. Gostaria de em alguns anos, ver-nos mergulhados nessa sociedade de “burros-de-carga” de não pensadores, e perceber que estamos sendo agentes de mudança. Promoteres de justiça social, defensores daqueles que desde muito cedo precisaram ralar duro e não puderam ficar assistindo Malhação como nós. Porque a escravidão do corpo, muitas vezes leva à escravidão da mente também... Vamos ser libertadores... foi para isso mesmo que Cristo veio não? Para libertar o cativo e romper o jugo opressor... fisica, mental e espiritualmente. Não quero mais ser escrava do trabalho (e pense que é isso que Caxias do Sul com todas as suas empresas, te propõe), não quero ser escrava da mídia (e pense que é isso que Malhação e todas as porcarias de novelas te propõe), e não quero ser escrava espiritual, e veja que é isso que o mundo inteiro te propõe. Pense como hoje, você pode ser agente de libertação na sua escola, na sua empresa, no seu GC, na sua casa...
Escrito por Carol pierosan às 22h08
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